Imerso nas luzes da cidade, ele conduziu o carro vagarosamente pela noite fria. Ao som de sua banda favorita, ficou tranqüilizado. Contornou a rótula de acesso do bairro onde morava e dobrou à direita em direção à sua casa. Poucas janelas ainda brilhavam na sua rua. Quando estava se aproximando, notou algo estranho. A porta da frente estava aberta. Um frio na barriga o fez acelerar o carro e pará-lo imediatamente em frente è casa. Desceu e caminhou cautelosamente até a porta entreaberta. Entrou. No chão, observou passos de barro que iam até o corredor. Seguindo, passou pelo seu quarto, banheiro, cozinha... Mas não percebeu nada faltando. Os passos terminavam na porta de trás. Abriu e fez a volta na casa até chegar novamente na frente. Levou mais um susto. Seu carro havia sumido. Ele colocou as mãos na cabeça e correu para o meio da rua. Olhou para os lados e não viu nada. Sequer ouviu o som do seu carro sendo roubado. A única coisa a fazer seria entrar em casa e ligar para a polícia. Mas ele não conseguiu. A porta estava trancada. Parou, pensou... Correu até a porta de trás, mas ela também estava trancada. Ele ficou sem saber o que fazer. Colocou a mão no bolso, mas realmente havia deixado no carro. De repente o som de uma explosão não muito longe acordou o bairro inteiro. Quando se deu conta já estava no meio da rua, tamanho era o seu susto. Os vizinhos saíram apavorados das casas. Lá ao longe, viu o seu carro pegando fogo. Caminhou até lá. Uma multidão dominou a cena. Ele foi até o carro, mas não havia ninguém lá dentro. De repente, mais uma explosão. Todos olharam para trás. Então ele viu a sua casa em chamas. Logo, ouviu dezenas de tiros e viu seus vizinhos caírem secos no chão. Segundos depois...
O menino caminhava pelo bosque observando tudo em sua volta. Logo, avistou a fruta suculenta em uma árvore de difícil acesso bem próxima a um desfiladeiro. Para alcançá-la, seria necessário subir pelos galhos e correr o risco de cair. Faminto, ele tentou. Agarrou-se na árvore, colocou um pé lá, uma mão cá... Ficou deitado no galho que balançava muito. O vento soprava e o seu coração acelerava. A fruta olhava para o menino parecendo dizer: "Venha, é fácil!". Ele só ouvia o silêncio. Andou centímetro por centímetro.
O galho quebrou.
Já com a fruta na mão, restava apenas observar o chão pedregoso que se aproximava. De repente, uma ave gigantesca o segurou pelos pés em um rasante. Lá do alto, o menino pôde ver o galho se espatifando. Voando velozmente, a ave desviava de árvores, passava por rios, montes... O pássaro perdeu o menino, então, numa clareira e sumiu. O menino se levantou e retomou a respiração. Empunhou a espada, olhou para os lados e continuou a busca pela fruta que salvaria a menina doente do seu vilarejo.
A baiana desceu do táxi com um cigarro na mão e uma bolsa horrível no braço esquerdo. Postou-se ao lado do veículo. Olhou para o nada e acendeu o seu cigarro. Virou-se, colocou os óculos escuros e foi em direção à porta do hotel. Passou pela porta giratória e continuou a caminhar. De repente, percebeu que estava indo em direção ao táxi que acabara de descer. Lá dentro, o recepcionista do hotel ria escalafobeticamente ao vê-la atrapalhada. Irritada, ela correu, seus cabelos se armaram, seu rosto ficou vermelho, conseguiu entrar no hotel e foi raivosa até o homem que ria dela desvairadamente.
Ela explodiu o balcão com uma pancada.
- Qual é o seu problema? – Ela gritou.
Ele não conseguia parar de rir.
- Eu tenho cara de Tiririca? – Continuou.
- É que foi tão engraçado!
- O que foi engraçado?
- Você girou, girou, girou e foi para o lado errado! Parecia um ventilador com esses cabelos!
A mulher jogou o cigarro no chão, apagou-o com o pé, encarou o balconista e falou:
Os dois amigos pularam a cerca de arame, levantando poeira do outro lado. O cachorro latia e babava raivoso. Correram pelas folhas secas até chegarem próximos à ponte que dava acesso à vila em que moravam. Sentaram-se, para descansar, na grama fresquinha, sob a sombra agradável das árvores do bosque.
- Está aqui...
- Quero ver, deixe-me ver!
- Espere, vou limpar!
- Ai, dê-me isso aqui!
Ele correu, limpou-a nas águas do rio e voltou.
- É lindo não é?
- É o meu reflexo.
Levou um soco leve no braço.
A dupla observava encantada a pedra brilhante que acabara de roubar. Era um diamante da mansão. O diamante da casa do velho senhor. A casa era branca, de madeira, cercada pelo bosque. Possuía um ar de mistério, mas era bem cuidada.
A pedra estava guardada no coração da casa Roubaram uma pedra que brilhava. Mas os olhos deles brilhavam mais do que o próprio diamante.
- Peguei vocês!
O velho levantou os dois pelas camisetas e gritou novamente:
- Devolvam-me o que vocês roubaram de mim!
Os dois gritavam de medo do velho, dando passos em falso no ar, nem conseguiam responder. Nem queriam. Estavam com medo, só queriam correr.
O senhor largou-os no chão e o diamante saltou do bolso de um dos meninos.
- O que é isso! Além de tudo roubaram o meu diamante! Isso não levará vocês dois a lugar nenhum! Eu tenho muito dinheiro, mas não tenho o mais importante. Não tenho mais esse brilho que vejo nos olhos de vocês, jovens. Olhos de pessoas sonhadoras, que ainda acreditam em um mundo que valha a pena. Eu não estou atrás do diamante. Se quiserem podem ficar! O que eu quero é a felicidade. A inocência, os sonhos que não realizei! Tive muitas pedras no caminho. Eu quero o brilho da minha vida de volta.
Em certos momentos, as pessoas tem ideias um pouco malucas. O menino desceu a ladeira freneticamente, pedalando como se quisesse voar. Usava duas asas nos braços, feitas de lençóis e de madeira leve. À frente, existia um rio com uma tábua formando uma ponte improvisada. E o menino pedalou, pedalou... A tábua rodopiou e saltou dois metros de altura, caindo, depois, nas águas profundas... Ele conseguiu passar. Largou a sua bicicleta em frente ao casebre e bateu na porta. Insistiu... Ninguém deu sinal de vida. Tentou espiar pela janela, mas o reflexo não permitia revelar nada do que se passava lá dentro. Ergueu os braços: “Ai dento!”. Reforçou: “Essa porta, um dia, eu arrebento”. Ao voltar, caiu na vala.
No meio do bosque, o guerreiro treinava golpes com a espada. Seu mestre, bem ao longe, observava a dedicação do seu aprendiz. Era dia e o céu estava limpo.
O mestre foi até ele entregar a nova espada. A tão sonhada espada. O aprendiz ficou extremamente feliz, ergueu a arma pesada e brilhante aos céus e gritou: “Independência ou morte!”. Seu mestre, desconfiado da loucura do aprendiz, arrancou a espada de sua mão e disse: “Vou lhe dar uma sova e uns belos sopapos nessa sua cara de basbaque!”.
O aprendiz saiu correndo de medo e deu de cara com uma árvore. Seu mestre levou a espada embora praguejando: “Perdi meu tempo ensinando esse retardado!”.
No caminho, ele foi assaltado por dois marginais que levaram sua espada.
O mestre morava na vila e o aprendiz no mundo da lua.
A janela aberta do quarto dava as boas vindas aos mosquitos. O ventilador tentava refrescar as idéias de João, e a lâmpada do quarto iluminava suas fracas idéias. Ele tentava, incansavelmente, escrever uma história. Uma história de mistério. Já estava pronta na sua memória, mas ela teimava em não se apresentar para o mundo. João recostou-se na cadeira, olhou para a janela e se levantou. Foi até ela.
Debruçou-se sobre a janela e observou o mar liso daquela noite. O vento havia se escondido atrás das montanhas. Mas ele resolveu dar a volta. O forte vento explodiu a porta do corredor. As cortinas começaram a enlouquecer, e João voltou para dentro. Deixou que aquele ar frio vindo lá de fora melhorasse o ambiente. Logo, fechou a janela. Foi até a escrivaninha e viu que as folhas estavam espalhadas pelo chão. Juntou uma a uma e as colocou sobre a mesa. Espantou-se. A história estava escrita. Era um mistério.