quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

A Ideia

© 2009 Vinnicius Silva da Rosa


Em certos momentos, as pessoas tem ideias um pouco malucas. O menino desceu a ladeira freneticamente, pedalando como se quisesse voar. Usava duas asas nos braços, feitas de lençóis e de madeira leve. À frente, existia um rio com uma tábua formando uma ponte improvisada. E o menino pedalou, pedalou... A tábua rodopiou e saltou dois metros de altura, caindo, depois, nas águas profundas... Ele conseguiu passar. Largou a sua bicicleta em frente ao casebre e bateu na porta. Insistiu... Ninguém deu sinal de vida. Tentou espiar pela janela, mas o reflexo não permitia revelar nada do que se passava lá dentro. Ergueu os braços: “Ai dento!”. Reforçou: “Essa porta, um dia, eu arrebento”. Ao voltar, caiu na vala.




segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Mestre e o Aprendiz

© 2006-2008 Vinnicius Silva da Rosa.


No meio do bosque, o guerreiro treinava golpes com a espada. Seu mestre, bem ao longe, observava a dedicação do seu aprendiz. Era dia e o céu estava limpo.

O mestre foi até ele entregar a nova espada. A tão sonhada espada. O aprendiz ficou extremamente feliz, ergueu a arma pesada e brilhante aos céus e gritou: “Independência ou morte!”. Seu mestre, desconfiado da loucura do aprendiz, arrancou a espada de sua mão e disse: “Vou lhe dar uma sova e uns belos sopapos nessa sua cara de basbaque!”.

O aprendiz saiu correndo de medo e deu de cara com uma árvore. Seu mestre levou a espada embora praguejando: “Perdi meu tempo ensinando esse retardado!”.

No caminho, ele foi assaltado por dois marginais que levaram sua espada.

O mestre morava na vila e o aprendiz no mundo da lua.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Uma Nova Vida


© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


No último dia

De primavera

Ele descobriu

Quem ele era


No último dia

De primavera

Nunca mais

Ficaria na espera


Queria Correr

Queria Lutar

Perseguia um sonho

Mas queria voltar


No último dia

De primavera

O sol começou a brilhar

Como nunca havia brilhado


Estava indo pra longe

Deixando tudo de lado

Seguindo novos caminhos

Num dia ensolarado.

sábado, 29 de novembro de 2008

Uma História de Mistério.




© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


A janela aberta do quarto dava as boas vindas aos mosquitos. O ventilador tentava refrescar as idéias de João, e a lâmpada do quarto iluminava suas fracas idéias. Ele tentava, incansavelmente, escrever uma história. Uma história de mistério. Já estava pronta na sua memória, mas ela teimava em não se apresentar para o mundo. João recostou-se na cadeira, olhou para a janela e se levantou. Foi até ela.

Debruçou-se sobre a janela e observou o mar liso daquela noite. O vento havia se escondido atrás das montanhas. Mas ele resolveu dar a volta. O forte vento explodiu a porta do corredor. As cortinas começaram a enlouquecer, e João voltou para dentro. Deixou que aquele ar frio vindo lá de fora melhorasse o ambiente. Logo, fechou a janela. Foi até a escrivaninha e viu que as folhas estavam espalhadas pelo chão. Juntou uma a uma e as colocou sobre a mesa. Espantou-se. A história estava escrita. Era um mistério.


sábado, 15 de novembro de 2008

Verde


© Vinnicius Silva da Rosa


A menina caminhava na grama molhada, observando os passarinhos e as borboletas voarem para o infinito. O sol fazia a grama brilhar. Foi até a beirada do monte para observar o mar.

Jogou-se.

Lançou-se ao vento, acariciando o seu reflexo na água. Mergulhou em suas vontades. Nadou por entre as pedras, com os peixes nadou.

Seus cabelos molhados emergiram na outra margem. Ela olhou para trás e sorriu. Aquele céu de anil se uniu com a água azul. E o sol se destacou no pôr-do-sol. A pequena menina foi embora.

Sua aldeia, sua família, sua inocência... Permaneceram com ela, voando para o infinito.

domingo, 12 de outubro de 2008

Tempestade

© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


O vento forte fazia as janelas dos prédios vizinhos baterem e sacolas plásticas voarem por entre os gigantescos edifícios comerciais da cidade e os cachorros latirem desesperadamente. O ar quente anunciava uma tempestade que estava por vir. Pessoas caminhavam em todas as direções como num formigueiro. Comerciantes fechavam as suas portas de metal um após o outro, como se fosse uma coreografia ensaiada. Senhoras caminhavam apressadamente com suas compras do início do mês. Chegou. A chuva caiu como uma pedra. Guarda-chuvas se abriram, formando um tapete preto pelas ruas da cidade, com exceção de um pontinho cor-de-rosa, carregado por uma menina que voltava da escola. Em instantes, as ruas estavam praticamente vazias. Lá no alto, estava eu. Na janela do hotel. Preocupado. Assustado com o medo que as pessoas têm de si mesmas. Ainda sem saber que o mundo continuaria, que a tempestade iria embora, que o sol brilharia novamente para a menina voltar da escola feliz, que os comerciantes sorririam cifrões e que eu voltaria para casa.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Nexo quebrado.

© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


Sem nexo. O reflexo no espelho do maluco estava quebrado. Uma pedra, jogada no chão, enfeitava o piso gelado. Ele se olhava no espelho rachado. Buscou uma fita para tentar recompor a sua imagem, mas a pedra já havia sido jogada. Uma batida pesada deu-se na porta. Era o seu camarada, tentando salva-lo. O maluco estava louco. Naquele inverno, sem meia, o maluco caminhava no quarto. Estava quebrado. Tudo estava quebrado. Mas o que quebrou em seguida foi a porta, arrombada pelo seu camarada. Sim, um amigo de infância do maluco. Os dois começaram a brigar pela pedra, jogada no chão. O camarada queria impedir que o maluco quebrasse a imagem de sua amizade. Ele estava louco, não sabia que o seu amigo estava ali. O seu reflexo estava cortado.

A pedra foi jogada pela janela. Lá fora, uma cadela foi atingida. Coitada, ela não era alimentada pelo maluco há dias e agora estava para morrer. Sim, por uma pedrada. Coitada. O camarada saiu do quarto, deixando o maluco ali, caído... Quebrado. Coitado.

O camarada, então, quebrou a amizade. Ele não conseguia encontrar um nexo em tudo. Bem feliz, ele foi pra casa jogar vídeo game.

FIM

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Sede por dinheiro.


© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


João desceu do carro, fechou a porta e ficou escorado enquanto esperava o tempo passar. Do bolso, retirou um bilhete com o endereço e o horário do encontro. Ele era metódico, sempre revisava suas próprias anotações. Não gostava de errar. Ele estava ali para cobrar um dinheiro.

Ele era sedento por dinheiro.

Cinco minutos depois, do outro lado da rua, José apareceu e acenou. João atravessou a rua, o cumprimentou e seguiu caminhando ao seu lado pela calçada.

Era um dia frio, com muito vento, mas a conversa começou a esquentar, ficar tensa. José não parecia querer pagar João. Mas no final tudo deu certo. João deu um soco em José e resolveu o seu problema. João pôde comprar, então, uma Coca-cola.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Miragem

© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


Um andarilho caminhava perdido pelo deserto. Ele estava com sede, cansado... Depois de várias horas de caminhada, resolveu parar para descansar. Ao olhar para o horizonte, avistou uma pirâmide de vidro, mas pensou que fosse apenas uma miragem. Continuou caminhando na areia quente, quando de repente pisou em algo estranho. Era um baú enterrado. Curioso, ele cavou em volta e o retirou dali. Dentro, estava um bilhete antigo que informava sobre uma pirâmide de vidro, no meio do deserto. O bilhete continha mais algumas frases do outro lado, mas ele não estava conseguindo ler, pois estava muito cansado. Então ele caminhou na direção do misterioso objeto, construção ou qualquer coisa que aquilo pudesse ser. O sol se escondeu, o deserto escureceu e esfriou, mas a pirâmide continuou brilhando, com uma luz verde-clara muito forte no seu interior.

O andarilho tocou na parede de vidro da pirâmide e ela se abriu no chão, revelando a luz que ainda brilhava lá dentro. Ele estava exausto, então acabou adormecendo ali.

Ele acordou com os primeiros raios de sol, mas a pirâmide havia sumido. Ele não pôde descobrir o que era aquilo. O bilhete havia se perdido na areia.


quarta-feira, 25 de junho de 2008

O Mundo é doido?

© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


Preste atenção quando você está saindo de casa. Você vê um felino subindo uma árvore assustado atrás de um rato? Eu nunca vi um rato subir em árvores. Rato come folha? O mundo é doido. Se ratos possuíssem asas, os felinos desceriam das árvores correndo de medo. Será que as árvores sentem dor quando os felinos cravam as garras para subir? Se sentissem dor gritariam. Uma árvore com bocas?! Se uma árvore tivesse boca, deveria ser carnívora para não comer a si mesma! Não, espere aí! Nós não somos vegetarianos! Alguns são. De fato, muitas pessoas comem as outras. Quando os europeus chegaram ao Brasil se depararam com nativos canibais. Existiam felinos no Brasil? Sim? Não? E ratos? Os europeus são doidos. Vieram lá dos cafundós, com suas máquinas de madeira, arrastando-se sobre as águas doidas do mundo. O mundo corre como uma correnteza doida. Os gatos não gostam de água! Então eles não são doidos! Será que eu sou doido? Só sei que vivemos numa bola, parecida com um novelo de lá. Nossa! Os felinos gostam de brincar com lá! Eles brincam com o mundo! Eu também brinco. Eu sou gatinho? Ou eu sou doido?

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(c) 2006-2012 Vinnicius Silva