quinta-feira, 9 de abril de 2009

O Momento


Silêncio.
Cheiro de folhas, árvores e vento.
Guerreiros audazes
No sério relento

Presos na mata
Esperando o dever
Meninos valentes
Que ninguém pode ver

De arma na mão
E muita coragem
Trazendo no peito
Da longa viagem

Descem do céu
Pingos de chuva
Na hora que surge
O Inimigo na curva.


terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Roda, roda, roda...

© 2009 Vinnicius Silva da Rosa


A baiana desceu do táxi com um cigarro na mão e uma bolsa horrível no braço esquerdo. Postou-se ao lado do veículo. Olhou para o nada e acendeu o seu cigarro. Virou-se, colocou os óculos escuros e foi em direção à porta do hotel. Passou pela porta giratória e continuou a caminhar. De repente, percebeu que estava indo em direção ao táxi que acabara de descer. Lá dentro, o recepcionista do hotel ria escalafobeticamente ao vê-la atrapalhada. Irritada, ela correu, seus cabelos se armaram, seu rosto ficou vermelho, conseguiu entrar no hotel e foi raivosa até o homem que ria dela desvairadamente.

Ela explodiu o balcão com uma pancada.

- Qual é o seu problema? – Ela gritou.

Ele não conseguia parar de rir.

- Eu tenho cara de Tiririca? – Continuou.

- É que foi tão engraçado!

- O que foi engraçado?

- Você girou, girou, girou e foi para o lado errado! Parecia um ventilador com esses cabelos!

A mulher jogou o cigarro no chão, apagou-o com o pé, encarou o balconista e falou:

- Um quarto, por favor.



domingo, 4 de janeiro de 2009

Os três meninos.


© 2009 Vinnicius Silva da Rosa


- Corre, corre!

- Ele vai nos alcançar!

Os dois amigos pularam a cerca de arame, levantando poeira do outro lado. O cachorro latia e babava raivoso. Correram pelas folhas secas até chegarem próximos à ponte que dava acesso à vila em que moravam. Sentaram-se, para descansar, na grama fresquinha, sob a sombra agradável das árvores do bosque.

- Está aqui...

- Quero ver, deixe-me ver!

- Espere, vou limpar!

- Ai, dê-me isso aqui!

Ele correu, limpou-a nas águas do rio e voltou.

- É lindo não é?

- É o meu reflexo.

Levou um soco leve no braço.

A dupla observava encantada a pedra brilhante que acabara de roubar. Era um diamante da mansão. O diamante da casa do velho senhor. A casa era branca, de madeira, cercada pelo bosque. Possuía um ar de mistério, mas era bem cuidada.

A pedra estava guardada no coração da casa Roubaram uma pedra que brilhava. Mas os olhos deles brilhavam mais do que o próprio diamante.

- Peguei vocês!

O velho levantou os dois pelas camisetas e gritou novamente:

- Devolvam-me o que vocês roubaram de mim!

Os dois gritavam de medo do velho, dando passos em falso no ar, nem conseguiam responder. Nem queriam. Estavam com medo, só queriam correr.

O senhor largou-os no chão e o diamante saltou do bolso de um dos meninos.

- O que é isso! Além de tudo roubaram o meu diamante! Isso não levará vocês dois a lugar nenhum! Eu tenho muito dinheiro, mas não tenho o mais importante. Não tenho mais esse brilho que vejo nos olhos de vocês, jovens. Olhos de pessoas sonhadoras, que ainda acreditam em um mundo que valha a pena. Eu não estou atrás do diamante. Se quiserem podem ficar! O que eu quero é a felicidade. A inocência, os sonhos que não realizei! Tive muitas pedras no caminho. Eu quero o brilho da minha vida de volta.




quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

A Ideia

© 2009 Vinnicius Silva da Rosa


Em certos momentos, as pessoas tem ideias um pouco malucas. O menino desceu a ladeira freneticamente, pedalando como se quisesse voar. Usava duas asas nos braços, feitas de lençóis e de madeira leve. À frente, existia um rio com uma tábua formando uma ponte improvisada. E o menino pedalou, pedalou... A tábua rodopiou e saltou dois metros de altura, caindo, depois, nas águas profundas... Ele conseguiu passar. Largou a sua bicicleta em frente ao casebre e bateu na porta. Insistiu... Ninguém deu sinal de vida. Tentou espiar pela janela, mas o reflexo não permitia revelar nada do que se passava lá dentro. Ergueu os braços: “Ai dento!”. Reforçou: “Essa porta, um dia, eu arrebento”. Ao voltar, caiu na vala.




segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Mestre e o Aprendiz

© 2006-2008 Vinnicius Silva da Rosa.


No meio do bosque, o guerreiro treinava golpes com a espada. Seu mestre, bem ao longe, observava a dedicação do seu aprendiz. Era dia e o céu estava limpo.

O mestre foi até ele entregar a nova espada. A tão sonhada espada. O aprendiz ficou extremamente feliz, ergueu a arma pesada e brilhante aos céus e gritou: “Independência ou morte!”. Seu mestre, desconfiado da loucura do aprendiz, arrancou a espada de sua mão e disse: “Vou lhe dar uma sova e uns belos sopapos nessa sua cara de basbaque!”.

O aprendiz saiu correndo de medo e deu de cara com uma árvore. Seu mestre levou a espada embora praguejando: “Perdi meu tempo ensinando esse retardado!”.

No caminho, ele foi assaltado por dois marginais que levaram sua espada.

O mestre morava na vila e o aprendiz no mundo da lua.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Uma Nova Vida


© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


No último dia

De primavera

Ele descobriu

Quem ele era


No último dia

De primavera

Nunca mais

Ficaria na espera


Queria Correr

Queria Lutar

Perseguia um sonho

Mas queria voltar


No último dia

De primavera

O sol começou a brilhar

Como nunca havia brilhado


Estava indo pra longe

Deixando tudo de lado

Seguindo novos caminhos

Num dia ensolarado.

sábado, 29 de novembro de 2008

Uma História de Mistério.




© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


A janela aberta do quarto dava as boas vindas aos mosquitos. O ventilador tentava refrescar as idéias de João, e a lâmpada do quarto iluminava suas fracas idéias. Ele tentava, incansavelmente, escrever uma história. Uma história de mistério. Já estava pronta na sua memória, mas ela teimava em não se apresentar para o mundo. João recostou-se na cadeira, olhou para a janela e se levantou. Foi até ela.

Debruçou-se sobre a janela e observou o mar liso daquela noite. O vento havia se escondido atrás das montanhas. Mas ele resolveu dar a volta. O forte vento explodiu a porta do corredor. As cortinas começaram a enlouquecer, e João voltou para dentro. Deixou que aquele ar frio vindo lá de fora melhorasse o ambiente. Logo, fechou a janela. Foi até a escrivaninha e viu que as folhas estavam espalhadas pelo chão. Juntou uma a uma e as colocou sobre a mesa. Espantou-se. A história estava escrita. Era um mistério.


sábado, 15 de novembro de 2008

Verde


© Vinnicius Silva da Rosa


A menina caminhava na grama molhada, observando os passarinhos e as borboletas voarem para o infinito. O sol fazia a grama brilhar. Foi até a beirada do monte para observar o mar.

Jogou-se.

Lançou-se ao vento, acariciando o seu reflexo na água. Mergulhou em suas vontades. Nadou por entre as pedras, com os peixes nadou.

Seus cabelos molhados emergiram na outra margem. Ela olhou para trás e sorriu. Aquele céu de anil se uniu com a água azul. E o sol se destacou no pôr-do-sol. A pequena menina foi embora.

Sua aldeia, sua família, sua inocência... Permaneceram com ela, voando para o infinito.

domingo, 12 de outubro de 2008

Tempestade

© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


O vento forte fazia as janelas dos prédios vizinhos baterem e sacolas plásticas voarem por entre os gigantescos edifícios comerciais da cidade e os cachorros latirem desesperadamente. O ar quente anunciava uma tempestade que estava por vir. Pessoas caminhavam em todas as direções como num formigueiro. Comerciantes fechavam as suas portas de metal um após o outro, como se fosse uma coreografia ensaiada. Senhoras caminhavam apressadamente com suas compras do início do mês. Chegou. A chuva caiu como uma pedra. Guarda-chuvas se abriram, formando um tapete preto pelas ruas da cidade, com exceção de um pontinho cor-de-rosa, carregado por uma menina que voltava da escola. Em instantes, as ruas estavam praticamente vazias. Lá no alto, estava eu. Na janela do hotel. Preocupado. Assustado com o medo que as pessoas têm de si mesmas. Ainda sem saber que o mundo continuaria, que a tempestade iria embora, que o sol brilharia novamente para a menina voltar da escola feliz, que os comerciantes sorririam cifrões e que eu voltaria para casa.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Nexo quebrado.

© 2008 Vinnicius Silva da Rosa


Sem nexo. O reflexo no espelho do maluco estava quebrado. Uma pedra, jogada no chão, enfeitava o piso gelado. Ele se olhava no espelho rachado. Buscou uma fita para tentar recompor a sua imagem, mas a pedra já havia sido jogada. Uma batida pesada deu-se na porta. Era o seu camarada, tentando salva-lo. O maluco estava louco. Naquele inverno, sem meia, o maluco caminhava no quarto. Estava quebrado. Tudo estava quebrado. Mas o que quebrou em seguida foi a porta, arrombada pelo seu camarada. Sim, um amigo de infância do maluco. Os dois começaram a brigar pela pedra, jogada no chão. O camarada queria impedir que o maluco quebrasse a imagem de sua amizade. Ele estava louco, não sabia que o seu amigo estava ali. O seu reflexo estava cortado.

A pedra foi jogada pela janela. Lá fora, uma cadela foi atingida. Coitada, ela não era alimentada pelo maluco há dias e agora estava para morrer. Sim, por uma pedrada. Coitada. O camarada saiu do quarto, deixando o maluco ali, caído... Quebrado. Coitado.

O camarada, então, quebrou a amizade. Ele não conseguia encontrar um nexo em tudo. Bem feliz, ele foi pra casa jogar vídeo game.

FIM

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(c) 2006-2012 Vinnicius Silva